Escrever de um hospital não parece uma boa coisa. Soa falso, oportúnuo. Mas no meu caso, garanto que não é. Se você perdoar um ou outro errinho de português (gramática ou concordância), tenho certeza que você achará o conteúdo deste site bastante simpático.
Me chamo Flávio, tenho 30 anos. Sou gerente de projetos aqui em Porto Alegre-RS e, portanto, adoro lidar com pessoas. Adoro mesmo, acho que até demais. Sou daqueles tímidos que a internet foi uma dos grandes responsáveis pelo tratamento.
No dia 1/5/2010 eu teria o casamento de um grande amigo, onde reencontraria uma turma de pessoas que eu considero muito, mas muito próximos.
Semana do dia 26/04/2010: estava finalizando a organização e contratação de pessoal para a minha sonhada empresa. Pretendo criar uma empresa divertida, inovadora, focada em web. Para isso criei um anúncio diferente (www.agileway.com.br/vaga) e recebi uma centena de candidatos, dos quais escolhi dois. Tudo estava bacana, mas meu pé começava a doer.
Sexta-feira dia 30/04/2010: o meu pé não apenas doía como já demonstrava inchaço. Resolvi vir, sozinho, até o pronto-socorro do Hospital São Lucas, da PUCRS. Para mim, um exame de rotina, medicação e liberação.
Mas a vida é uma caixinha de surpresas, já diria o inteligentíssimo Forrest Gump.
Sábado dia 1/5/2010
10h30-14h30: realizei o último exame (ecografia) da bateria que fora designado. O médico constatou uma trombose no meu pé esquerdo. O fato de uma trombose dar em uma pessoa de 30 anos, que sim, fica bastante sentada na frente do computador, já foi uma surpresa. Ouvir o médico ligar para um especialista em doenças vasculares e sugerir internação já ultrapassa a linha da surpresa e se torna pânico. Em 30 minutos o médico chegou. Em 5 minutos me examinou. Em 2 minutos encaminhou os papéis para minha internação.
Como lidar com o fato de que, até algumas horas atrás você estava planejando em que restaurante iria almoçar, e agora estava preocupado com injeções, medicações e tratamentos? Minha alma ruiu, embora eu tenha tentado passar uma imagem de “Ok, vamos lá encarar isso”.
Os momentos burocráticos que antecedem uma internação, da emergência para o hospital, são os piores. Meus pais e minha noiva estavam comigo. Embora conversássemos sobre assuntos diversos, minha mente só se focava em uma coisa: injeções, medicações e tratamentos. E o monstrinho foi se criando na minha cabeça.
E quando isso acontece, a ansiedade escolhe o meu intestino para atacar. Lá fui eu correr para o banheiro. Voltei, tentando aparentar maior animação. Mas logo em seguida a enfermeira-chefe da emergência solicitou que eu entrasse na sala do ambulatório para iniciar a medicação. Estava relaxado, até então.
15:00: Sentei na confortável poltrona e fui orientado pela enfermeira Márcia a aguardar que ela já me atenderia. À minha volta, diversos casos de pacientes. Pedra nos rins, suspeita de AVC, crise de diabetes, etc. logo na entrada, na minha frente, havia uma menina de 22-23 anos que estava há mais de 5 minutos tentando receber medicação na veia. Mas as veias delas eram muito finas. E a enfermeira não conseguia colocar a medicação corretamente. A menina chorava de dor, pois já havia sido furada várias vezes. E a ardência nas vezes em que a veia era acertada era tanta, que ela implorava para tirar.
Esta foi a primeira visão que eu tive ao entrar no ambulatório. A então controlada ansiedade logo teve um novo pico. “Será isso que irei enfrentar?”.
16:00: A enfermeira Márcia não encontrava tempo para me medicar. Para mim, não era nada grave, e por isso pacientes mais importantes recebiam atenção. Se passara uma hora da minha entrada no local, e eu já estava cansado de vê-la andar de um lado para o outro e lidar com o nervosismo, choro e indignação de parentes e pacientes de todas as idades. A menina da minha frente recebeu a notícia que conseguira um leito para ela. Desejei sorte a ela. Foi minha forma de canalizar um pouco a ansiedade em alguma coisa.
17:00: Entra uma senhora, aparentando 70 anos, amparada pelos familiares. Ela senta na minha frente. Estava sonolenta e o diagnóstico era que havia passado mal. Por uma curiosidade não muito divertida, ela baixou hospital junto com o seu marido (o seu “velhinho” como ela chamava). Ele encontrava-se em situação mais grave. Mas ela estava apenas ali para observação. Suas duas filhas estavam sempre às voltas dela, sendo uma enfermeira do nono andar do hospital (logo, conhecia médicos e procedimentos como ninguém).
17:30: A senhora acorda e conversa com o médico. De tanta sonolência, ela adormece durante a conversa por algumas vezes, causando até um certo ar cômico no momento. Ao terminar a conversa, o momento que não consigo tirar da cabeça: uma das suas filhas fala: “Mãe, agora deita e descansa” e puxa o pé da poltrona que a reclina. Só que este ato faz a senhora quase ser ejetada da poltrona. O susto que ela levou deve ter sido enorme.
18:00: A senhora acorda novamente, conversa rapidamente com suas filhas. E pede para ver o “seu velhinho”. A filha diz que ele está em outra sala, pois o estado é mais grave. A senhora se emociona, e em seguida a filha puxa outro assunto para distraí-la. A senhora se diz cansada, e então novamente a filha enfermeira “ejeta” sua mãe na poltrona, reclinando. Sério, você pode imaginar a cena pois realmente foi engraçada.
18:30: Novamente a senhora acorda (agora de vez) e tenta acalmar uma menina que fazia manhã por estar com uma sonda no nariz. Não deve ser agradável ter uma sonda no nariz, mas ali existiam outras pessoas mais necessitadas. E essa menina só queria que a enfermeira lhe desse atenção, chorando. A senhora toma as dores e tenta acalmá-la. Nisso chega um dos filhos da senhora e fala que a internação está em andamento. Irão tentar internar o casal juntos, a pedido da senhora. Ele fala para a senhora: “Mãe, descansa…!” e nisso a senhora já se agarra no encosto da poltrona para evitar novo duplo twist carpado ao reclinar a poltrona.
19:00: Converso rapidamente com essa família, após observá-la durante todo o período. Noto que é uma família muito, mas muito parecida com a minha. Pessoas unidas, uma “mãezona” ansiosa porém com um coração enorme, filhos sempre positivos, apesar de tudo. Essa identificação me emociona por um instante. Pois penso na minha família. E quantas vezes eu deixei de valorizá-la por motivos banais. A emoção é deixada de lado com a enfermeira Márcia me avisando que meu leito está sendo preparado. Sou medicado com duas injeções (não, eu não temo elas, apenas não gosto de olhar) e sou orientado a aguardar novamente.
20:00: Quase dez horas depois de entrar no hospital sem maiores pretensões, sou internado no meu quarto. Recebi no período ambulatorial a notícia de que ficaria em repouso absoluto na cama. E repouso absoluto significa que o único movimento que eu teria era de me mexer na cama. Qualquer necessidade fisiológica (numero 1 ou 2) seria na cama. Prometi a mim mesmo que numero 2 na cama seria muito degradante para mim. E iria atuar para evitar isso.
Fui internado ao lado de um homem na faixa de 50-60 anos que havia sido espancado brutalmente. Estava em coma induzido, todo entubado. A família lutava diariamente para encontrar sinais de melhorias. Uma piscada de olho. Um sorriso. Meus pais e minha namorada foram acertar alguns detalhes burocráticos na entrada do hospital.
Foi aí que, vendo tudo o que eu havia passado, vendo a família que eu tinha, vendo a capacidade do ser humano em ser mau, vendo que eu não teria mesmo condições que ir no casamento e rever a turma de amigos como planejado, e vendo a minha situação de estar internado sem poder sair da cama, justo num momento em que eu havia conseguido o que mais queria (poder iniciar a minha empresa) eu chorei. Baixinho, escondido, mas chorei. Foram poucas lágrimas, numa mistura de tristeza, emoção e alegria. Foi uma descarga emocional devido às dez horas de emoções fortes.
Decidi, então, que, a partir daquele momento, eu estava (com todo o respeito a você, leitor) na merda. Aquele era o meu fundo do poço. E se eu estava ali, só dependeria de mim subir.
E para subir, era preciso um bom astral. Era preciso bom humor. Era preciso demonstrar para os outros que eu era capaz, para que eles retribuíssem da mesma forma.
Decidi então iniciar uma sessão de tweets diários, expondo o meu dia-a-dia no hospital, fosse o tempo que eu fosse ficar. De uma forma meio auto-ajuda, meio bem-humorada, meio crítica, meio ácida, meio sarcástica.
Mas uma forma de compartilhar uma experiência que eu viveria. E que poderia transmitir meus aprendizados diários a tantos outros que, assim como eu, tiveram ou terão algum dia o seu planejamento diário quebrado por uma fatalidade.
Se você é assim, este blog é o seu melhor amigo. A partir de agora, você terá uma coletânea de posts diários publicados por mim, como forma de apresentar aos amigos que ser paciente no hospital não é ruim.
Você verá que num hospital você estará em boas mãos, com enfermeiros espirituosos, profissionais e capacitados; daqueles que ficam bravos se você não os pede auxílio. E de médicos que farão o possível e o impossível para mandá-lo o mais cedo para casa, curado ou o mais próximo disso possível.
Dedico a eles.
Antes que você fale: sim, há exceções. Mas este blog não irá tratar sobre as exceções.
E por fim, para que você valorize cada dia mais a sua saúde, a sua família e os amigos que tem. Sexo, trabalho, bens materiais, e todo resto é secundário em relação a isso.
Espero que você se divirta com os posts. E que eles lhes tragam um pouco menos de preocupação quando fores enfrentar estes problemas.
PS: os nomes dos pacientes serão fictícios para evitar problemas. Dos enfermeiros e médicos serão reais, para valorizá-los.
Flávio, muito boa sua iniciativa em relatar sua experiência. Parabéns pelo bom humor e alto astral na forma de encarar a doença e todas as dores decorrentes, não só físicas, mas também as da alma. Tenho certeza que você sairá desta com outra visão da vida e isto te fará mais forte e feliz! Seja ilumiado Divinamente!